POSSÍVEIS CAUSAS DA FIBROMIALGIA

PROBLEMAS MUSCULARES

 

Até cerca de trinta anos atrás, a fibromialgia era chamada de Fibrositis que significa inflamação do músculo.

No início dos anos 1980 alguns pesquisadores encontraram  anormalidades em biópsia de músculo de pessoas com fibromialgia. Já em 1989 outro estudo apresentou numa conclusão contrária, a inexistência de anormalidades músculares em pacientes com fibromialgia.

Porém, há evidências crescentes de que as pessoas com fibromialgia têm músculos inaptos ou pouco desenvolvidos. Mas ainda não se sabe se essa inaptidão física muscular é a causa ou a consequência da fibromialgia.

Pesquisas sobre a estrutura e função do tecido muscular, na fibromialgia, chegaram a conclusões variáveis. Mas, atualmente, alguns estudos estão apresentando novamente a possibilidade de que lesões ou problemas musculares sejam a causa da fibromialgia:

Fibromialgia Pós-Traumática (FPT)

Lesão Muscular

Hipóxia Muscular

 

FIBROMIALGIA PÓS-TRAUMÁTICA - FPT

 

 

A Fibromialgia como uma complicação de ferimentos – por Dr. Mark J. Pellegrino, MD pelo Dr. Mark J. Pellegrino, MD - 21 de outubro de 2008

 

 

O Dr. Pellegrino é especialista em medicina física e reabilitação e atende muitas pessoas com dor crônica. Este artigo foi extraído, com a sua permissão, do livro “Fibromyalgia: Up Close & Personal.

 

"A dor iniciou-se após o acidente de carro, e ela nunca mais foi embora. Antes do acidente eu estava perfeitamente saudável, agora dói tudo e nada resolve o meu problema."

 

Esta é uma típica história que eu ouço de pacientes que têm dor crônica após sofrer uma lesão por chicote de pescoço. Alguns dos tratamentos podem ter ajudado a reduzir a dor, mas ela não desaparece. Muitas vezes, a dor é localizada no início do pescoço e ombros, mas ao longo do tempo, outras áreas do corpo começam a doer também, então a pessoa passa a dizer a clássica da frase que resume a fibromialgia: "Dói tudo".

 

A fibromialgia causada por um trauma é chamada de Fibromialgia Pós-Traumática (FPT): Um trauma provoca danos nos tecidos do corpo. Quando não acontece a recuperação desses tecidos, a FPT pode se desenvolver. Ela não ocorre imediatamente após a lesão, leva tempo para evoluir e desenvolver os pontos sensíveis (Tender Points) característicos em locais distintos.

Vários tipos de trauma podem causar lesões e podem levar a FPT: chicote de pescoço, quedas, acidentes, lesões esportivas e LER/DORT.

A literatura médica tem numerosos exemplos de dor persistente após trauma. Um estudo realizado pelo Dr. HR Walen (Journal of Musculoskeletal Pain, 2001) mostrou uma prevalência surpreendentemente alta de mais de 90% dos pacientes relatando pelo menos um evento traumático, antes do aparecimento dos sintomas da fibromialgia.

 

Diagnóstico da Fibromialgia Pós-Traumática: A fibromialgia trauma-relacionada, ou FPT, é uma condição médica específica e para ser diagnosticada uma avaliação clínica global precisa ser elaborada. Esta avaliação inclui a história do paciente e o exame físico, complementado por testes diagnósticos e uma revisão de registros médicos anteriores. O diagnóstico final da FPT é feito se esses dados estão presentes:

Nenhuma queixa de dor semelhante antes do trauma. Ou seja, se a pessoa não tiver um pré-diagnóstico ou sintomas de fibromialgia antes do trauma.

 

História de um trauma que levou à dor.

 

A dor resultante persiste desde a ocorrência do trauma (que eu chamo de “cadeia inquebrável de dor”).

 

Dor generalizada que persiste por pelo menos 6 meses após a lesão, bem além do tempo normal de cicatrização dos tecidos moles.

 

A presença dos pontos dolorosos característicos definidos pelo Colégio Americano de Reumatologia, isto é, pelo menos 11 dos 18 “pontos sensíveis” positivos. Caso os pontos sensíveis estejam presentes em apenas uma região, um subtipo de fibromialgia - Fibromialgia Regional Pós-Traumática - pode ser considerado.  

 

  O diagnostico de FPT não pode ser feito imediatamente após o trauma, ela leva tempo para se desenvolver.

 

Mecanismos da FPT: Há uma diferença entre causa e mecanismo. A causa é PORQUE desenvolvemos a doença, e neste caso, o trauma é a causa da FPT. O mecanismo é COMO desenvolvemos, ou QUAIS eventos patológicos conduziram ao problema. Já as mudanças que ocorrem após a fibromialgia ter se desenvolvido, são as consequências.

Mecanismos da dor por lesão: Os danos causados aos tecidos do corpo por uma lesão podem ocorrer a partir de distensões musculares, entorse de ligamentos, hérnia de disco, impacto, trauma direto do nervo, edema e inflamação. Uma combinação de lesões ativa as cascatas de dor, que bombardeiam a medula espinhal e o cérebro com sinais de dor a partir de vários locais.

 

Mecanismos neurobiológicos que levam à FPT:

Lesões em nervos e inflamações, danos ou  cicatrizações de tecidos moles ativam os nociceptores (terminações nervosas especializadas onde a dor se origina) e os sinais de dor.

 

Lesões localizadas nos músculos podem criar bioquímicos hormonais e alterações de glóbulos vermelhos que interferem na habilidade das células em receber oxigênio, glicose e outros nutrientes. Então, o fluxo do sangue, a formação de energia e a harmonia bioelétrica são perturbadas.

 

Naqueles que desenvolvem FPT, os nociceptores provavelmente permanecem alterados e continuam a emitir sinais de dor. Também ocorre uma hipersensibilização dos nociceptores, de modo que eles começam a responder de forma aumentada a qualquer estímulo (mecanismo conhecido como Alodinia). Os nervos não conseguem "desligar" estes sinais dolorosos contínuos e sofrem profundas alterações funcionais, então ou a dor surge espontaneamente, ou os sinais sensoriais normais são erroneamente interpretados como dor.

Gatilhos Persistentes: Estímulos que alimentam a cascata de dor da FPT vêm de diferentes tecidos lesionados. Estas áreas são conhecidas como "gatilhos" ou “geradores” de dor e podem ocorrer sempre que houver um dano residual de uma lesão:

Gatilhos musculares: Espasmos e cicatrizes musculares são exemplos de gatilhos persistentes. Feixes musculares podem entrar em espasmos de proteção sempre que há uma inflamação ou irritação na região. Na FPT, os músculos podem ser forçados a trabalhar mais porque os tecidos foram permanentemente danificados e não podem mais executar o seu trabalho corretamente. Assim, os músculos se contraem em espasmos de proteção e mais sinais de dor são enviados.

 

Disfunção articular: O pesquisador australiano Nikolai Bogduk e seus colegas demonstraram como as articulações, especialmente as da vértebra do pescoço, são um importante gatilho de dor crônica. As articulações podem ser instáveis, pois os ligamentos capsulares foram danificados ou sobrecarregados em uma lesão. Esses ligamentos não conseguem mais segurar as juntas nem estabilizá-las e qualquer movimento provoca dor. As articulações podem ser demasiadamente restritas ou apertadas, levando a instabilidade. Os espasmos musculares podem apertar ou restringir ainda mais as articulações, causando dor por imobilidade.

 

Discos intervertebrais: Essas áreas podem se tornar geradores de dor crônica se o trauma causar danos no ligamento anular do disco.

 

Lesões nervosas: As Raízes nervosas, o plexo braquial ou os nervos simpáticos podem ser machucados, estirados ou danificadas por um trauma e não se restabelecerem por completo.

Todas as fontes acima podem alimentar a sensibilização do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal), mantendo e agravando o estado de dor crônica do FPT.

Tratamento para FPT: Os tratamentos para a FPT e fibromialgia não traumática, são os mesmos, já que fibromialgia é fibromialgia, independentemente da causa.

 

 

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LESÃO MUSCULAR

 

 

Estudo do Hospital del Mar mostrou lesões em músculos de pacientes com fibromialgia - Esses resultados abrem a porta para um novo enfoque sobre a fibromialgia - 29 de janeiro de 2009 - Nota de Imprensa 
 

 

Pela primeira vez foi demonstrada uma causa orgânica para o desenvolvimento desta doença, devido à presença de atividade inflamatória e lesões musculares.

 

Os resultados do estudo foram comunicados à comunidade científica internacional. Um estudo conjunto do Serviço de Reumatologia e Pneumologia do Hospital del Mar e o grupo de investigação de miogênese, inflamação e função muscular do IMIM de Barcelona concluiu que as pessoas que sofrem de fibromialgia têm lesão muscular.

Os resultados preliminares deste estudo, financiado pelo Ministério da Saúde e Consumo, foi apresentada pela primeira vez no Congresso Anual do American College of Rheumatology. Estudos futuros e revalidações dos resultados observados sobre a relação funcional entre as lesões musculares e a doença, poderá abrir novas perspectivas terapêuticas para o combate à fibromialgia. 

Estes resultados apontam, pela primeira vez, uma causa orgânica para a doença. Foi claramente demonstrado a presença de atividade inflamatória local nas áreas afetadas. Além disso, esta atividade inflamatória foi observada sobretudo nos momentos do aparecimento ou do agravamento das crises de dor. Foram evidenciadas lesões musculares - presença de alterações estruturais e de estresse oxidativo - durante esses períodos.

 

Durante anos se buscou evidências dessa organicidade. Até agora, não tinham sido encontradas anormalidades nos tecidos analisados por biópsias, nem alterações significativas na atividade elétrica do músculo. Agora, ao contrário, graças à investigação do Hospital del Mar-IMIM, após analisados os marcadores de dano tecidual (expressões de moléculas inflamatórias, de estresse oxidativo ou de moléculas associadas à reparação muscular), verificou-se valores diferentes. Especificamente, os investigadores encontraram uma associação significativa entre o envolvimento muscular em pacientes com fibromialgia, conforme medido por indicadores de estresse oxidativo (lesão muscular), e uma baixa concentração de uma molécula inflamatória chamada TNF-alfa. O TNF-alfa, em níveis aceitáveis, auxiliam no reparo da estrutura muscular. Inversamente, os baixos níveis desta molécula podem impedir uma reparação adequada dos músculos em pacientes com fibromialgia. Assim, os baixos níveis de TNF-alfa encontrados no estudo demonstram que, para além das teorias sobre ansiedade ou humor, a fibromialgia apresenta uma consistência orgânica própria e diferenciada.

 

A Fibromialgia afeta 3% da população em geral. É uma doença que afeta principalmente mulheres (relação mulher-homem é de 10:1, ou seja, 10 mulheres para cada homem). Observa-se principalmente entre os 20 e os 50 anos. A Fibromialgia é caracterizada por dor generalizada nos músculos e tendões, acompanhada de fadiga, e pode ser incapacitante. Outros sintomas a destacar são os distúrbios do sono, os episódios de depressão e as crises de ansiedade. O diagnóstico não é fácil: primeiro é preciso descartar uma série de doenças reumáticas e neurológicas, por outro lado, o diagnóstico pode ser ainda mais complexo, porque, até recentemente, era uma doença desconhecida por muitos dos profissionais de saúde.

 

A origem e as causas da doença ainda não estão esclarecidas e, por esse motivo, muitos profissionais pensavam até recentemente que a fibromialgia correspondia a um quadro associados a enfermidades como a depressão ou a ansiedade e não acreditavam ser uma doença orgânica.

 

Esta nova descoberta, se confirmada em estudos futuros como uma causa, poderia abrir novos caminhos terapêuticos no tratamento da doença, pois a presença de uma relação direta entre os níveis de TNF-alfa muscular e alteração estrutural sugere uma relação dependência entre os dois fenômenos. Houve também evidências de uma lesão muscular nas zonas dolorosas em forma de ruptura muscular e os níveis elevados dos marcadores de estresse oxidativo celular.

Os resultados preliminares deste estudo, iniciado em 2006 com subvenção do Ministério da Saúde e Consumo da Espanha, foi apresentado no mês de Outubro no congresso anual do American College of Rheumatology. A equipe responsável, no entanto, não deu o estudo por concluído e continua a analisar as amostras.

 

Recentemente, o Hospital del Mar, em Barcelona, tem contribuído para o desenvolvimento de uma outra descoberta relacionada com a fibromialgia, o CRC-Mar vem coordenando um estudo que demonstrou que a ressonância magnética funcional pode avaliar a resposta cerebral à dor em pacientes com fibromialgia, permitindo assim, verificar quais são as áreas cerebrais que são ativadas nesses pacientes em comparação com outros sem a doença. O reforço dos conhecimentos científico e tecnológico, assim como a especialização em algumas áreas, fazem deste Centro um ponto de referência nesta e em muitas outras disciplinas.

A aposta do Hospital del Mar-IMIM na fibromialgia e o empenho de todos os recursos necessários para lidar com esta doença é clara: a implementação da unidade de referência e excelência em fibromialgia do Hospital del Mar. Esta unidade especializada em Fibromialgia e Síndrome de Fadiga Crônica, será constituída por uma equipa multidisciplinar de profissionais.

 

 

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HIPÓXIA MUSCULAR

 

 

A diminuição do fluxo sanguíneo para os músculos pode ser a causa da fibromialgia?

 

 

Ultimamente, vários estudos têm indicado que pacientes com fibromialgia têm diminuição do fluxo sanguíneo e diminuição da temperatura da pele nos locais dos tender-points.

 

Evidências sugerem que a fibromialgia pode ser, pelo menos em parte, o resultado de hipóxia (deficiência de oxigênio) nos músculos. A hipótese é de que, em parte, o metabolismo energético dos tecidos musculares é inibido, reduzindo a síntese de ATP.

 

Pesquisadores da Yale University School of Medicine publicaram na Medical Hypotheses de 19 de março de 2007, estudo onde sugerem que existem indicadores que apontam uma "hipoperfusão" (diminuição do fluxo sangüíneo) nos músculos de pacientes com fibromialgia.

 

O pesquisador N. Lund, estudando a pressão de oxigênio nos músculos trapézio e braquiorradial (músculo do antebraço), relatou que pacientes com fibromialgia apresentam deficiência de oxigenação nos locais dos tender points. Essa hipótese está ligada às possíveis alterações metabólicas no sistema musculoesquelético.

 

O estudo conduzido por Yunus & Kalyan-Raman sobre as alterações da microcirculação, potencial causadora da hipóxia tecidual, apontou a presença de edema focal, rupturas nas fibras tipo l, atrofia das fibras tipo ll, necrose das miofibrilas, anormalidades mitocondriais e projeções papilares do sarcolema, além de variações de conteúdos lipídicos e glicogênio no músculo.

 

Os distúrbios decorrentes de insuficiência de oxigenação nos tecidos muscular e conjuntivo, podem levar a uma redução do potencial energético do tecido muscular. O fato das fibras musculares estarem submetidas à hipóxia, pode gerar fadiga, por conta da menor capacidade de esforço, e promover espasmos, dificuldade de relaxamento das fibras e dor.

 

As evidências de que influências vasodilatadoras aliviam a dor através do aumento da irrigação sanguínea dos músculos, têm implicações significativas para melhoria do tratamento. A vasodilatação pode ser conseguida tanto com exercícios físicos, quanto com medicamentos convencionais.

 

Se ainda não está totalmente claro que a alteração estrutural muscular seja a causa primária da síndrome, pelo menos há indícios de que as anormalidades bioquímicas dos músculos são capazes de contribuir para os sintomas da fibromialgia, principalmente a dor.

 

 

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